Rogério Marinho pretende pressionar parlamentares da direita a revelarem seus votos na disputa pela Presidência da Casa em 2027; método foi decisivo em 2019, quando a exposição pública das escolhas ajudou a derrotar Renan Calheiros.
O Partido Liberal (PL) pretende recorrer a uma estratégia que ajudou a eleger Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) presidente do Senado, em 2019, para tentar impedir que o parlamentar permaneça no comando da Casa em 2027. A proposta, defendida pelo líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), é estimular que senadores da direita tornem públicos seus votos na próxima eleição para a Presidência do Legislativo, marcada para 1º de fevereiro. A iniciativa busca constranger politicamente parlamentares que, embora tenham sido eleitos com apoio do campo conservador, possam optar pela continuidade de Alcolumbre.
A estratégia deverá ser discutida pela bancada do PL em uma reunião prevista para quarta-feira (4), em Brasília. O encontro também deve servir para avançar na definição de uma candidatura própria do partido, com Rogério Marinho como principal nome para enfrentar o atual presidente do Senado.
A intenção foi confirmada pelo próprio Marinho, que defende a exposição pública dos votos como instrumento de pressão política. Ao comentar a possibilidade de parlamentares apoiarem Alcolumbre sem assumir publicamente a decisão, o senador afirmou. “É difícil justificar em público o voto no Alcolumbre, né?”. A declaração evidencia a aposta da oposição em transformar a escolha interna do Senado em um compromisso público diante dos eleitores.
O movimento recupera uma tática utilizada na eleição de fevereiro de 2019, quando Alcolumbre enfrentou Renan Calheiros (MDB-AL) pelo comando da Casa. Naquele momento, a pressão de parlamentares e eleitores nas redes sociais para que os senadores revelassem suas escolhas teve papel importante no enfraquecimento da candidatura de Renan.
Apesar de uma decisão do então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, determinar que a votação ocorresse de forma secreta, aliados de Alcolumbre passaram a mostrar suas cédulas antes de depositá-las na urna e a declarar publicamente seus votos. A exposição gerou constrangimento entre parlamentares que preferiam manter suas escolhas em sigilo.
Um dos episódios mais emblemáticos envolveu o senador Jorge Kajuru, que afirmou ter recorrido a uma enquete nas redes sociais para definir seu voto. Segundo ele, embora sua preferência pessoal fosse por Reguffe, a maioria dos participantes da consulta manifestou apoio a Alcolumbre. O então senador Flávio Bolsonaro também acabou revelando seu voto no candidato do DEM, após a repercussão negativa de sua decisão inicial de não tornar pública a escolha.
Renan Calheiros abandonou a disputa em meio ao ambiente de pressão e às críticas sobre a condução do processo. No dia 2 de fevereiro de 2019, Alcolumbre foi eleito presidente do Senado com 42 votos. O resultado consolidou uma articulação que reuniu adversários políticos de Renan e setores ligados ao então governo de Jair Bolsonaro.
Agora, o cenário se inverte. O mesmo mecanismo de exposição pública que favoreceu Alcolumbre poderá ser utilizado por seus adversários para dificultar uma eventual reeleição. A avaliação da oposição é que senadores identificados com a direita terão maior dificuldade para justificar perante suas bases eleitorais um eventual apoio ao atual presidente da Casa.
A disputa, entretanto, não está definida. O PL terá uma bancada de 29 senadores a partir de fevereiro de 2027, enquanto o Novo contará com três representantes. Outros partidos, como Republicanos, PP, Podemos e PSDB, também reúnem parlamentares que podem influenciar o resultado. Para vencer a eleição em primeiro turno, são necessários pelo menos 41 votos entre os 81 integrantes do Senado. Alcolumbre e Rogério Marinho afirmam contar com o apoio de 48 senadores cada um. As estimativas, porém, indicam uma disputa ainda indefinida, já que parte dos parlamentares aparece nas projeções dos dois grupos.
Outro fator de tensão é a divisão dentro da própria direita. Enquanto uma ala do PL defende o enfrentamento direto a Alcolumbre, outra considera mais vantajoso negociar espaços na estrutura do Senado e preservar a influência política do partido. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) também aparece entre os nomes interessados na disputa, o que pode fragmentar o campo oposicionista.
As críticas da oposição a Alcolumbre cresceram em razão de sua relação com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Parlamentares bolsonaristas apontam divergências sobre a tramitação de propostas relacionadas à anistia dos condenados pelos atos de 8 de janeiro, aos pedidos de impeachment de ministros do STF e a pautas trabalhistas defendidas pelo governo.
A eleição de fevereiro de 2027 deverá, portanto, ser marcada não apenas pela disputa entre candidaturas, mas também pela capacidade de cada grupo de manter sua base parlamentar unida. Ao apostar na exposição pública dos votos, o PL tenta transformar a pressão das redes sociais em instrumento de articulação política, repetindo uma fórmula que, no passado, contribuiu para levar o próprio Alcolumbre à Presidência do Senado.










