Com meta de 95% para interromper a transmissão, país enfrenta dificuldades para completar a imunização infantil enquanto surtos internacionais acumulam dezenas de milhares de casos e mortes.
O avanço do sarampo nas Américas acendeu um alerta para as autoridades de saúde e reforçou a preocupação com a baixa cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral no Brasil. Dados do Ministério da Saúde divulgados em outubro de 2026 mostram que a imunização contra a doença permanece abaixo do patamar recomendado para interromper a circulação do vírus: entre janeiro e agosto, a cobertura da segunda dose chegou a 79,78%, distante da meta de 95%. No mesmo período, surtos em outros países do continente ampliaram o risco de reintrodução da doença em território brasileiro.
Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), as Américas registraram 52.676 casos confirmados de sarampo e 61 mortes entre janeiro e 5 de setembro de 2026. Os números, divulgados em relatório epidemiológico publicado em setembro, representam um cenário de forte expansão da doença em comparação com o ano anterior. Guatemala, México, Estados Unidos, Peru e Canadá concentraram a maior parte das ocorrências notificadas na região.
O quadro preocupa porque o sarampo é uma doença altamente contagiosa, transmitida pelo ar e capaz de provocar complicações graves, principalmente em crianças pequenas e pessoas com a imunidade comprometida. A circulação internacional de pessoas, combinada à existência de grupos não vacinados, favorece a disseminação do vírus entre países.
Brasil registra casos e reforça vigilância
Apesar do cenário internacional, o Brasil mantém o reconhecimento de país livre da circulação endêmica do sarampo, condição restabelecida em novembro de 2024. Isso não significa, porém, ausência de casos. O país continua sujeito à entrada do vírus por meio de pessoas infectadas em regiões onde a doença permanece em circulação.
De acordo com o Ministério da Saúde, até 5 de outubro de 2026, foram registrados 52 casos importados no Brasil: 41 em São Paulo, dez no Amazonas e um no Rio de Janeiro. Diante das notificações, as equipes de vigilância epidemiológica intensificaram a investigação de casos suspeitos, o monitoramento de contatos e o bloqueio vacinal nas áreas afetadas.
A situação exige atenção porque a existência de pessoas sem o esquema vacinal completo facilita a formação de cadeias de transmissão. Em 2019, quando o país enfrentava uma cobertura insuficiente e transmissão sustentada do vírus, foram registrados mais de 20 mil casos de sarampo, levando à perda da certificação de eliminação da doença.
O Ministério da Saúde destaca que a vacinação continua sendo a principal estratégia para evitar que casos importados provoquem novos surtos. Para isso, além da identificação rápida dos infectados, é necessário ampliar a proteção coletiva por meio da atualização das cadernetas de vacinação.
Segunda dose é o principal desafio
A vacina tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola e está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O calendário de rotina prevê a primeira dose aos 12 meses de idade e a segunda aos 15 meses. Embora a cobertura da primeira dose tenha alcançado 94,66% entre janeiro e agosto de 2026, com base em informações do Ministério da Saúde, o índice da segunda dose permaneceu em 79,78%. A diferença evidencia a dificuldade de garantir que as crianças completem o esquema vacinal recomendado.
A meta de 95% é considerada fundamental para reduzir a circulação do vírus e proteger também as pessoas que não podem receber a vacina por contraindicações médicas. Quando a cobertura fica abaixo desse patamar, aumenta o número de indivíduos suscetíveis à infecção e cresce o risco de surtos. A desigualdade entre os municípios também é um fator de preocupação.










