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TSE julga posts que relacionam Flávio Bolsonaro a Nossa Senhora Aparecida; Mendonça vota pela retirada de conteúdo

Ministro considera que publicações reproduzem informação sem respaldo factual e defende manutenção das ordens de remoção; julgamento ainda depende dos demais integrantes da Corte.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) começou a analisar nesta quarta-feira (30/09) uma controvérsia que envolve liberdade de expressão, propaganda eleitoral e circulação de informações falsas nas redes sociais. Primeiro ministro a votar, André Mendonça defendeu a manutenção das decisões que determinaram a retirada de publicações que relacionam o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Nunes Marques determina que TSE julgue caso dos posts de Nossa Senhora  Aparecida: entenda o vaivém a menos de uma semana da eleição - BBC News  Brasil
Foto: Reprodução.

O julgamento ocorre em plenário virtual e ainda não foi concluído. Por isso, o posicionamento de Mendonça representa, neste momento, o voto do relator e não uma decisão definitiva do TSE.

A controvérsia ganhou repercussão durante a campanha eleitoral após conteúdos publicados nas redes sociais associarem Flávio Bolsonaro a um projeto que tratava do título atribuído a Nossa Senhora Aparecida. A defesa do candidato levou o caso à Justiça Eleitoral, alegando que as publicações disseminavam uma informação falsa e poderiam produzir efeitos eleitorais.

O que Mendonça decidiu

Em seu voto, André Mendonça sustentou que as determinações para retirada dos conteúdos não configuram censura prévia. Segundo o ministro, as decisões não impedem manifestações futuras sobre Flávio Bolsonaro, sua família, religião ou sobre Nossa Senhora Aparecida.

 (Imagem: Leobark Rodrigues/Secom/TSE)
TSE julga exclusão de post sobre Nossa Senhora Aparecida.(Imagem: Leobark Rodrigues/Secom/TSE)

A medida, conforme a fundamentação apresentada pelo relator, alcança conteúdos que apresentem como fato a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Mendonça também destacou que a análise deve considerar o conteúdo efetivamente publicado. Ou seja, uma manifestação crítica, política, religiosa ou satírica não seria automaticamente enquadrada na determinação apenas por mencionar o candidato ou a santa.

O entendimento busca diferenciar a manifestação de opinião da divulgação de uma afirmação apresentada como fato e considerada falsa pela Justiça Eleitoral.

Como surgiu a informação

A discussão tem origem em publicações que passaram a relacionar Flávio Bolsonaro a uma proposta legislativa referente ao título de Nossa Senhora Aparecida. O projeto citado nas publicações foi apresentado anos antes e acabou arquivado em 2008. Flávio Bolsonaro não era o autor da proposta.

Levantamentos publicados pela imprensa também apontaram que não havia registro de declaração do candidato defendendo a retirada do título de Padroeira do Brasil. A informação passou, posteriormente, a circular nas redes sociais em meio à campanha eleitoral, adquirindo caráter político e provocando a judicialização do caso.

Publicação de Antonio Tabet entrou no processo

Entre os conteúdos analisados está uma publicação do humorista Antonio Tabet no X, feita em 24 de setembro. Embora a postagem não mencionasse nominalmente Flávio Bolsonaro, a representação apresentada à Justiça Eleitoral sustentou que o conteúdo estava inserido no contexto da narrativa que atribuía ao candidato a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

A partir da análise do caso, Mendonça determinou inicialmente a retirada da publicação e posteriormente estabeleceu parâmetros para alcançar conteúdos considerados semelhantes. O ministro, entretanto, revisou parcialmente uma de suas determinações ao analisar a publicação da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP).

Nesse caso, Mendonça entendeu que o conteúdo tinha caráter condicional e não apresentava como fato que Flávio Bolsonaro pretendesse retirar o título da santa. Por esse motivo, o post deixou de estar abrangido pela ordem de remoção.

Disputa chegou ao Supremo Tribunal Federal

A controvérsia também chegou ao STF após decisões diferentes de ministros da Corte. O ministro Flávio Dino havia suspendido os efeitos da decisão de Mendonça e permitido novamente a circulação dos conteúdos. Posteriormente, o ministro Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino e restabeleceu provisoriamente os efeitos da determinação da Justiça Eleitoral.

O episódio colocou em discussão não apenas o conteúdo das publicações, mas também os limites da atuação judicial durante o período eleitoral, especialmente diante da velocidade de propagação de informações nas plataformas digitais. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, posteriormente deixou o caso fora da pauta da Corte nesta quarta-feira. Com o julgamento no TSE, a controvérsia passa a ser examinada pelo colegiado responsável pela Justiça Eleitoral.

Liberdade de expressão está no centro da discussão

Um dos principais pontos do julgamento é estabelecer até onde pode ir a atuação da Justiça Eleitoral diante de conteúdos publicados durante uma campanha. De um lado, decisões de remoção podem ser utilizadas para impedir que informações falsas sejam apresentadas como fatos e influenciem o eleitorado.

De outro, manifestações políticas, críticas, sátiras e opiniões fazem parte do debate eleitoral e possuem proteção constitucional. A distinção entre essas situações é especialmente relevante nas redes sociais, onde uma publicação pode combinar opinião, humor, crítica política e afirmações factuais em uma mesma mensagem.

É justamente nesse ponto que o voto de Mendonça procura estabelecer uma diferenciação entre conteúdo protegido como manifestação e a reprodução de uma informação que a Justiça considera objetivamente falsa.

Julgamento ainda não terminou

Apesar do voto de André Mendonça pela manutenção das ordens de retirada, os demais ministros do TSE ainda precisam apresentar seus votos. O julgamento ocorre em plenário virtual e pode resultar na manutenção, alteração ou derrubada das determinações anteriormente adotadas. Até a conclusão da votação, portanto, não é correto afirmar que o TSE tenha decidido definitivamente pela retirada de todos os conteúdos relacionados ao tema. O que existe, neste momento, é o voto do relator favorável à manutenção das medidas questionadas.

Por que o caso ganhou importância eleitoral

Além da disputa específica envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida, o julgamento ocorre em um contexto de forte circulação de conteúdo político nas plataformas digitais.

Decisões da Justiça Eleitoral sobre remoção de publicações podem estabelecer parâmetros para situações semelhantes durante o processo eleitoral, principalmente quando candidatos alegam que conteúdos falsos estão sendo utilizados para influenciar a opinião dos eleitores. A análise do TSE também deverá ser acompanhada por partidos, campanhas, plataformas digitais e entidades ligadas à liberdade de expressão, justamente porque o caso envolve a fronteira entre combate à desinformação e preservação do debate político.

Enquanto os ministros não concluírem a votação, permanecem em aberto os termos definitivos que serão adotados pela Corte. O voto de André Mendonça, portanto, marca o início da análise colegiada. A decisão final dependerá da posição dos demais integrantes do Tribunal Superior Eleitoral.

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