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China aciona fundos estatais para conter queda das bolsas em meio à fuga de investidores

Ações de gigantes da tecnologia e da indústria acumulam perdas expressivas, enquanto Pequim amplia compras de ativos para tentar estabilizar os mercados; analistas alertam que a intervenção pode frear a desvalorização, mas não resolve os problemas estruturais da economia chinesa.

A China está recorrendo a fundos de investimento ligados ao Estado para tentar conter a queda das bolsas de valores, em meio à desvalorização de ações de grandes empresas de tecnologia e indústria e ao aumento das preocupações com o ritmo da economia. A estratégia, que envolve compras de ações por meio de fundos negociados em bolsa (ETFs), busca reduzir a pressão vendedora e recuperar a confiança dos investidores, mas ainda não oferece garantias de uma retomada consistente dos mercados.

O movimento ocorre em um momento de forte correção dos ativos chineses. O índice CSI 300, que reúne ações de grandes empresas negociadas nas bolsas de Xangai e Shenzhen, acumula queda de aproximadamente 10% desde o início de 2026 e recuou cerca de 20% em relação ao pico registrado em junho, entrando em território de mercado baixista, conhecido como bear market.

Entre as empresas mais afetadas estão a CATL, maior fabricante mundial de baterias para veículos elétricos, cujas ações negociadas em Shenzhen perderam 37% do valor desde o início do ano, e a ChangXin Memory Technologies (CXMT), fabricante chinesa de memórias DRAM, que registrou queda de 20% no último mês, segundo dados reportados pela imprensa financeira internacional.

A dimensão das perdas levou Pequim a intensificar a atuação da chamada “equipe nacional”, denominação utilizada pelo mercado para identificar fundos e instituições financeiras vinculados ao Estado chinês que compram ações em períodos de turbulência. Embora as autoridades não tenham divulgado um balanço completo das operações recentes, os fluxos de recursos para ETFs acompanhados por analistas indicam uma presença mais forte desses investidores no mercado.

Estimativas do Goldman Sachs apontam que fundos ligados ao Estado teriam comprado aproximadamente 170 bilhões de yuans em ETFs durante outubro, o equivalente a cerca de US$ 23 bilhões. Já o Bank of America calculou compras superiores a 110 bilhões de yuans. Os valores são estimativas independentes, e não números oficiais consolidados pelo governo chinês.

A intervenção produziu sinais pontuais de alívio. Na quarta-feira (28), o CSI 300 avançou 0,9%, em meio às indicações de compras por instituições estatais. O movimento, contudo, não elimina as dúvidas sobre a capacidade de sustentar uma recuperação em um mercado pressionado por fatores econômicos e pela revisão das expectativas em torno das empresas de inteligência artificial.

Tecnologia perde força e pressiona os mercados

Parte da turbulência está relacionada à forte valorização que ações ligadas à inteligência artificial e a outros segmentos tecnológicos registraram anteriormente. Com investidores revendo as expectativas de crescimento e rentabilidade, empresas que haviam atraído grandes volumes de capital passaram a enfrentar vendas intensas.

O recuo da CATL também ocorre em um ambiente de maior pressão sobre o setor de veículos elétricos, marcado pela concorrência entre fabricantes, pela disputa por margens de lucro e por dúvidas sobre o ritmo de expansão da demanda. A empresa continua sendo uma das principais fornecedoras mundiais de baterias, mas a queda de suas ações evidencia a mudança de percepção dos investidores sobre as perspectivas de parte da indústria chinesa.

No caso da CXMT, a desvalorização reflete a volatilidade dos papéis ligados à produção de semicondutores e à corrida tecnológica chinesa. O segmento ganhou destaque estratégico diante dos esforços de Pequim para ampliar a autonomia do país na fabricação de componentes essenciais para computadores, centros de dados e sistemas de inteligência artificial.

A pressão também alcançou Hong Kong. O índice Hang Seng acumula perdas superiores a 12% em 2026, enquanto seu subíndice de tecnologia registra queda superior a 30%. Dados citados pelo Financial Times indicam que investidores da China continental venderam cerca de 20 bilhões de dólares de Hong Kong em ações do território ao longo de outubro, movimento que contribuiu para ampliar a pressão sobre os preços.

O quadro sugere que a correção não está restrita a algumas empresas. A combinação de desvalorização de ações tecnológicas, saída de recursos e dúvidas sobre o crescimento econômico tem atingido diferentes segmentos dos mercados chineses.

Economia fraca limita eficácia das medidas

A principal dificuldade para Pequim é que a estabilização das bolsas depende não apenas da entrada de recursos públicos, mas também das perspectivas de lucro das empresas e da confiança dos consumidores. O consumo interno permanece fraco, enquanto o setor imobiliário continua enfrentando uma crise prolongada, que afeta a percepção de riqueza das famílias e o apetite por investimentos.

Outro indicador preocupante é o investimento em ativos fixos, que caiu 7,2% na comparação anual nos primeiros nove meses de 2026, segundo dados citados pela imprensa econômica. O resultado reforça as dúvidas sobre a força da atividade doméstica, apesar do desempenho das exportações chinesas.

A expectativa de novos estímulos fiscais de grande dimensão também perdeu força entre investidores. Medidas pontuais de apoio, incluindo subsídios relacionados ao crédito imobiliário, ainda não foram suficientes para dissipar as preocupações com a economia.

Nesse contexto, a compra de ações por fundos estatais funciona como um mecanismo de contenção da volatilidade. Ao entrar no mercado quando investidores privados vendem ativos, essas instituições podem reduzir temporariamente a pressão sobre os preços e evitar movimentos mais abruptos de queda.

O alcance dessa estratégia, entretanto, tem limites. Analistas ouvidos por veículos internacionais avaliam que a atuação estatal pode estabelecer um piso temporário para as cotações, mas não substitui a recuperação da demanda interna nem resolve as incertezas sobre os resultados das empresas.

A experiência chinesa também mostra que intervenções anteriores foram acompanhadas por medidas econômicas mais abrangentes. Em 2024, por exemplo, as ações ganharam novo impulso após o anúncio de um pacote de estímulos, embora a dimensão e a duração dos efeitos tenham variado conforme o setor e as condições do mercado.

Para a economia chinesa, o desafio é equilibrar a necessidade de estabilizar o sistema financeiro com a retomada de um crescimento sustentado pelo consumo e pelo investimento produtivo. Sem avanços nesses pontos, a entrada de recursos estatais pode aliviar a turbulência por algum tempo, mas não necessariamente reverter a tendência de queda.

A evolução dos mercados nas próximas semanas dependerá, portanto, tanto da continuidade das compras institucionais quanto de sinais concretos de melhora na atividade econômica e na rentabilidade das empresas. Por enquanto, a estratégia de Pequim representa uma tentativa de conter as perdas e restaurar a confiança, sem garantia de que a pressão sobre as bolsas tenha chegado ao fim.

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