Vitória dos democratas nas eleições legislativas americanas enfraquece a base política do presidente e pode estimular uma postura mais pragmática nas relações comerciais com o Brasil, avalia professor da FGV.
A derrota do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos pode abrir uma oportunidade para o governo brasileiro avançar nas negociações comerciais com o país. Com a vitória dos democratas no Congresso americano, o presidente Donald Trump passa a enfrentar uma oposição mais forte, cenário que pode pressionar a Casa Branca a rever medidas econômicas e adotar uma postura menos confrontadora nas relações internacionais.
A avaliação é do professor de Política e Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Eduardo Mello, em entrevista à revista Exame, publicada nesta quinta-feira (5). Para o especialista, o resultado das eleições pode favorecer uma aproximação entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Trump, principalmente nas discussões sobre as tarifas impostas a produtos brasileiros.
Segundo Mello, a política comercial americana também pode ser revista por razões econômicas internas. As tarifas encarecem produtos importados e podem contribuir para o aumento dos preços nos Estados Unidos. Nesse contexto, a inflação teria influenciado o desempenho dos republicanos nas urnas e pode levar o governo a reconsiderar parte das medidas comerciais.
Por que a derrota de Trump pode mudar a relação com o Brasil?
As eleições de meio de mandato, conhecidas nos Estados Unidos como midterms, acontecem na metade do período presidencial de quatro anos. Nelas, os americanos escolhem representantes para o Congresso, que é formado por duas Casas: a Câmara dos Representantes e o Senado.
Diferentemente da eleição presidencial, essa votação não escolhe um novo presidente, mas pode alterar a composição do Legislativo e o equilíbrio de forças políticas no país.
Com a vitória dos democratas, Trump terá de lidar com uma oposição mais forte no Congresso. Isso pode dificultar a aprovação de propostas do governo, ampliar a fiscalização sobre suas decisões e aumentar a pressão política sobre medidas consideradas controversas.
Na avaliação de Eduardo Mello, o resultado também pode limitar a margem de atuação do presidente na política externa. O professor considera que a campanha democrata deu destaque às críticas às decisões internacionais do governo Trump, incluindo a política de tarifas comerciais.
O que são as tarifas comerciais e como afetam o Brasil?
As tarifas são impostos cobrados sobre produtos importados. Na prática, quando um país aumenta a tributação sobre mercadorias estrangeiras, o custo para importar esses produtos também sobe. Esse valor pode ser repassado às empresas e aos consumidores, encarecendo produtos e pressionando a inflação.
No caso brasileiro, as tarifas impostas pelo governo americano afetam empresas que exportam mercadorias para os Estados Unidos, pois podem tornar seus produtos mais caros e menos competitivos naquele mercado.
O tema é importante porque os dois países mantêm relações comerciais em diferentes setores, incluindo a agricultura. O Brasil é um grande exportador de produtos agrícolas, enquanto os Estados Unidos também dependem de fornecedores estrangeiros para determinados produtos.
Para Mello, manter uma relação de confronto com o Brasil não atende aos interesses econômicos americanos. O professor avalia que a necessidade de controlar os preços dos alimentos pode estimular Washington a buscar acordos comerciais.
Mudança não significa fim automático das tarifas
Apesar da possibilidade de avanço nas negociações, a vitória democrata não determina a retirada imediata das tarifas impostas por Trump. O presidente americano ainda dispõe de instrumentos legais para tomar decisões sobre política comercial, mesmo diante de um Congresso controlado pela oposição.
A mudança na composição do Legislativo poderá ampliar a fiscalização sobre essas medidas e abrir espaço para discussões sobre os poderes presidenciais para impor tarifas. No entanto, eventuais alterações dependem de decisões políticas, negociações e procedimentos legais.
Mello avalia que uma possível revisão das tarifas pode ocorrer de maneira indireta, motivada principalmente pela necessidade de reduzir a inflação nos Estados Unidos, e não necessariamente por uma decisão específica para beneficiar o Brasil.
Para os próximos dois anos, o professor aposta em uma relação mais pragmática entre os governos de Lula e Trump, com maior atenção aos interesses econômicos dos dois países. A possibilidade de redução das barreiras comerciais, entretanto, dependerá da disposição do governo americano em negociar e dos resultados concretos das conversas entre as duas nações.










