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Vingança do crime organizado pode estar por trás de mortes em série em SP; polícia esclarece quatro dos 20 casos

Investigação da Polícia Civil aponta que vítimas foram executadas por desobedecer a regras impostas por criminosos, furtar sem autorização ou denunciar pontos de venda de drogas; outros homicídios continuam sem motivação esclarecida.

A Polícia Civil de São Paulo avançou nas investigações sobre os corpos encontrados em vias públicas e áreas de mata da capital e da região metropolitana e já conseguiu esclarecer a motivação de quatro dos 20 casos contabilizados pelas autoridades. As apurações indicam que as mortes tiveram relação com vinganças e retaliações praticadas por criminosos contra pessoas que teriam descumprido regras impostas por grupos envolvidos com atividades ilícitas ou entrado em conflito com seus integrantes.

Entre as motivações identificadas estão o desvio de dinheiro relacionado ao tráfico de drogas, a realização de furtos sem autorização de criminosos e a denúncia da comercialização de entorpecentes. Em um quarto homicídio, a vítima também teria sido assassinada após um desentendimento com criminosos, mas a polícia não divulgou detalhes sobre as circunstâncias do caso.

Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, os investigadores conseguiram avançar na identificação das circunstâncias de parte dos assassinatos, e alguns inquéritos já estão em fase de conclusão. O levantamento da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) contabiliza 20 ocorrências na capital e em municípios da região metropolitana. Os registros começaram a ser contabilizados em 5 de setembro. Na capital paulista, pelo menos 14 corpos foram encontrados em circunstâncias semelhantes ao longo de aproximadamente dois meses.

As investigações apontam que parte das vítimas tinha envolvimento com o consumo de drogas e era suspeita de praticar pequenos furtos. Uma das linhas de apuração considera a possibilidade de participação de grupos que promovem julgamentos e punições clandestinas, prática conhecida como “tribunal do crime”. Nesse tipo de atuação, pessoas acusadas de descumprir regras estabelecidas por criminosos podem ser submetidas a julgamentos ilegais e executadas como forma de retaliação. A hipótese, no entanto, ainda não explica todos os homicídios registrados.

Investigações não apontam um único responsável

Apesar das semelhanças em algumas ocorrências, a Polícia Civil não identificou, até o momento, uma autoria comum para os crimes. De acordo com as informações levantadas pelos investigadores, diferentes grupos criminosos podem estar envolvidos nas mortes, cada um com suas próprias motivações e circunstâncias.

Também permanece em investigação a possível participação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em parte dos episódios. A polícia ainda trabalha para determinar se os assassinatos foram ordenados por integrantes da facção ou se decorreram de conflitos envolvendo grupos criminosos locais.

A forma como os corpos foram encontrados chamou a atenção das autoridades e da população. Em diferentes ocorrências, as vítimas estavam amarradas, envolvidas em sacos plásticos ou tecidos e abandonadas em locais públicos, terrenos baldios e áreas de vegetação. Entretanto, a presença de características semelhantes não significa que os crimes tenham ligação entre si. A Secretaria da Segurança Pública já havia informado que o uso de sacos plásticos e outros materiais para envolver os cadáveres, isoladamente, não é suficiente para estabelecer uma conexão entre as ocorrências.

Polícia investiga possíveis reflexos da dispersão da Cracolândia

Outro aspecto considerado pelos investigadores é a possível relação entre os conflitos e as mudanças na concentração de usuários de drogas na região central da capital paulista, especialmente após a dispersão da antiga Cracolândia. Segundo relatos de policiais ouvidos pela Folha, a migração de usuários para outros bairros pode ter provocado novos conflitos com moradores e traficantes que já atuavam nessas localidades. A hipótese é de que disputas territoriais e desentendimentos tenham contribuído para parte das mortes.

O caso de um homem encontrado dentro de um carrinho de supermercado na Avenida 23 de Maio, na região central de São Paulo, também ganhou repercussão. Entretanto, a ocorrência não é tratada pela polícia como parte do conjunto de casos investigados nessa sequência de homicídios.

A Secretaria da Segurança Pública informou que as investigações continuam e que os trabalhos dependem, entre outros elementos, da conclusão de exames periciais. O objetivo é esclarecer as circunstâncias de cada morte, identificar os responsáveis e reunir provas que permitam a responsabilização criminal dos envolvidos.

Com quatro motivações já esclarecidas, a Polícia Civil avança na compreensão de parte dos assassinatos, mas ainda tem um longo caminho para solucionar todas as ocorrências. A principal conclusão até agora é que os casos não devem ser tratados como uma única sequência de crimes praticados por um mesmo autor, mas como homicídios distintos, alguns deles possivelmente relacionados a disputas e retaliações no ambiente do crime organizado.

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